Uma palavra, uma profissão.
Psicologia — Emoção
Terapia da Fala — Comunicação
Terapia Ocupacional — Autonomia
Fisioterapia — Movimento
Psicomotricidade — Coordenação
Este artigo pretende contribuir para uma melhor compreensão da psicomotricidade enquanto área específica e complementar, sem estabelecer comparações ou hierarquias entre profissões. Encaminhar corretamente não significa excluir, mas orientar para a resposta mais ajustada às necessidades da pessoa, naquele momento e naquele contexto terapêutico.
A psicomotricidade integra cada vez mais as equipas multidisciplinares que intervêm com crianças, jovens, adultos e idosos em diferentes contextos. A sua presença e reconhecimento variam consoante as realidades institucionais, os recursos disponíveis e os modelos de intervenção adotados. Em organizações de menor dimensão, a ausência do serviço de psicomotricidade conduz, de forma legítima, ao encaminhamento para outros serviços, refletindo uma necessidade prática e não uma desvalorização profissional.
Importa também referir que cada área de intervenção integra diferentes subáreas. Por exemplo, existe a psicologia clínica e da educação; na terapia da fala existem as perturbações da comunicação e linguagem e as perturbações da deglutição; na terapia ocupacional existe a reabilitação física e funcional e a integração sensorial; na fisioterapia temos a vertente neurológica e a musculoesquelética. O mesmo se verifica na psicomotricidade, cuja intervenção pode assumir uma vertente terapêutica, reeducativa, reabilitativa e preventiva, dirigindo-se a diferentes grupos etários e a problemáticas relacionadas com o desenvolvimento psicomotor, comportamento, aprendizagem e dimensão psicoafectiva, em diversos contextos educativos, clínicos, sociais e comunitários.
Com tantas especificidades, é comum nas equipas multidisciplinares que os objetivos de intervenção se cruzem e, por vezes, até tenham designações semelhantes. Contudo, o que difere são os métodos, estratégias e atividades aplicadas, ajustadas à área de atuação e à organização funcional da pessoa. Para além da formação e especialização, cada profissional traz consigo características pessoais que influenciam a forma de intervir e de se relacionar, sendo essa diversidade frequentemente uma mais-valia para o sucesso da intervenção conjunta.
Não existem “sinais exclusivos” que determinem automaticamente a necessidade de psicomotricidade. A decisão deve sempre resultar de avaliação técnica. Ainda assim, existem alguns sinais de alerta que podem indicar necessidade de avaliação psicomotora, sobretudo quando está em causa a organização global da ação corporal. Dificuldades persistentes em coordenar movimentos (tropeça frequentemente, esbarra em objetos ou apresenta movimentos pouco coordenados), dificuldades em organizar o corpo no espaço (confusão com a direita/esquerda e apresenta desorientação em tarefas motoras), agitação motora excessiva ou lentidão marcada nos movimentos que interferem na qualidade do movimento, dificuldade em planear ações simples (vestir-se, organizar materiais escolares ou em iniciar tarefas simples), escrita desorganizada associada a fraca organização corporal, ritmo irregular na execução das tarefas dificuldade em coordenar movimentos e a atenção.
A intervenção psicomotora traduz-se em ganhos funcionais concretos no quotidiano:
ü Melhor coordenação em atividades como correr, saltar, chutar ou lançar uma bola;
ü Maior capacidade para compreender e aplicar orientações espaciais em contexto de jogo ou de tarefa;
ü Melhor controlo tónico-emocional em situações de pressão;
ü Melhor compreensão das expressões, gestos e atitudes dos outros;
ü Uma perceção mais rápida e organizada do próprio corpo no espaço.
Enquanto psicomotricista integrado em equipas multidisciplinares, privilegio uma intervenção articulada, funcional e centrada na pessoa, respeitando as competências específicas de cada área. A minha prática assenta na organização corporal da ação como base para a autonomia, a aprendizagem e a participação no quotidiano, contribuindo para respostas mais coerentes, integradas e ajustadas às necessidades reais de cada pessoa e de cada contexto.
Gil Silva, Técnico de Psicomotricidade
Hermenegildo Silva, Técnico Superior de Reabilitação Psicomotora pela Universidade do Fernando Pessoa, Sócio Efetivo da Associação Portuguesa de Psicomotricidade.