O autismo que aprendeu a esconder-se
Camuflagem social, custo adaptativo e os limites de uma avaliação centrada apenas no que é visível
Quando a pergunta já não é sobre o diagnóstico
Há uma pergunta que regressa com frequência no final de uma avaliação formal de perturbação do espetro do autismo em adolescentes e jovens. Não é uma pergunta sobre o diagnóstico. É uma pergunta sobre o percurso.
Quanto tempo passou esta pessoa a tentar compreender-se através de explicações que nunca chegaram verdadeiramente ao centro do problema?
A resposta, quase sempre, é desconfortável.
Na avaliação clínica especializada, este padrão repete-se com demasiada frequência para continuar a ser encarado como uma coincidência. Durante anos, muitas meninas e mulheres foram acompanhadas por ansiedade social, humor depressivo, perturbações alimentares, baixa autoestima ou dificuldades relacionais persistentes. Essas dificuldades eram reais e exigiam intervenção. Contudo, por vezes, ocupavam todo o campo de visão clínico, enquanto o funcionamento neurodesenvolvimental permanecia por compreender.
O autismo não estava necessariamente ausente. Estava a ser lido como outra coisa.
A literatura tem documentado de forma consistente este problema. Os modelos clínicos, as amostras de investigação e os instrumentos de avaliação foram historicamente construídos com forte predominância masculina, o que contribuiu para uma menor sensibilidade a apresentações mais subtis, internalizadas ou socialmente compensadas (Russell et al., 2025). Corrigir este enviesamento não significa criar um «autismo feminino» separado. Significa reconhecer que a mesma condição pode adquirir expressões diferentes em função do desenvolvimento, do contexto, das expectativas sociais e das estratégias que cada pessoa aprende para sobreviver socialmente.
Quando observar deixa de ser suficiente
Durante anos, muitas destas adolescentes desenvolveram uma competência extraordinária: observar atentamente os outros antes de decidirem como agir. Observar. Ensaiar. Corrigir. Voltar a tentar. Só depois damos nome ao fenómeno: camuflagem social.
A camuflagem descreve um conjunto de estratégias, conscientes ou pouco conscientes, através das quais a pessoa procura reduzir a visibilidade das suas características autísticas, compensar dificuldades sociais ou aproximar o seu comportamento daquilo que percebe como esperado. Pode incluir a supressão de movimentos de autorregulação, o controlo deliberado do contacto ocular, a imitação de expressões e gestos, a preparação de respostas, o recurso a guiões conversacionais ou a observação sistemática dos pares (Hull et al., 2017; Hull et al., 2019; Livingston et al., 2019).
Estas estratégias não são necessariamente artificiais nem deliberadamente enganosas. Muitas começam como respostas adaptativas a experiências repetidas de correção, rejeição, estranheza ou exclusão. A pessoa aprende que certos comportamentos atraem censura e que outros facilitam a pertença. A camuflagem pode facilitar o acesso a relações, percursos educativos, contextos profissionais e outros espaços sociais. Em determinados contextos, pode também funcionar como proteção perante o estigma (Livingston et al., 2019; Cook et al., 2024).
É precisamente aqui que surge um dos maiores desafios para quem avalia. Quanto melhor alguém aprendeu a esconder, compensar ou reorganizar externamente as suas dificuldades, maior pode ser o risco de estas passarem despercebidas durante a própria avaliação.
Há um paradoxo difícil de ignorar: os instrumentos procuram identificar diferenças comportamentais observáveis, mas algumas pessoas passaram anos a aprender a torná-las menos visíveis. O que desaparece da observação não é necessariamente a dificuldade. Desaparece apenas a sua expressão mais óbvia.
Para além do género
A investigação sobre camuflagem ganhou visibilidade sobretudo através do estudo de mulheres autistas. Esse percurso foi indispensável. Permitiu compreender porque tantas mulheres, sobretudo sem deficiência intelectual e com linguagem funcional preservada, chegavam ao diagnóstico apenas na adolescência ou na idade adulta. Estudos quantitativos e meta-análises indicam que, em média, as mulheres autistas apresentam níveis mais elevados de camuflagem do que os homens autistas, embora os resultados variem consoante o método utilizado e a dimensão avaliada (Cancino-Barros et al., 2025).
Mas a camuflagem não é um fenómeno exclusivamente feminino.
Homens autistas também descrevem supressão de comportamentos, imitação, preparação de interações, utilização de humor ensaiado, estudo deliberado das regras sociais e construção de respostas compensatórias. A investigação sobre estratégias compensatórias mostra que estas podem estar presentes em pessoas de diferentes sexos e até em indivíduos sem diagnóstico formal, cujas dificuldades internas permanecem abaixo do limiar comportamental observado (Livingston et al., 2019). Os dados disponíveis mostram que a camuflagem também ocorre em homens autistas e não deve ser inferida apenas a partir do sexo ou do género (Cancino-Barros et al., 2025).
A diferença parece residir menos na existência ou ausência da camuflagem e mais na sua frequência, forma, contexto e função. O género pode influenciar as expectativas sociais, a forma como a diferença é sancionada e as oportunidades de aprendizagem por imitação. Não explica, porém, sozinho, o fenómeno.
Do ponto de vista clínico, talvez seja mais útil pensar que quanto maior é a pressão para parecer neurotípico (e quanto maior é a perceção de que a aceitação depende dessa aparência) maior pode ser o investimento em estratégias compensatórias. Essa pressão pode atingir meninas, rapazes, mulheres, homens e pessoas de género diverso. Pode intensificar-se na escola, no grupo de pares, no ensino superior, no trabalho ou em qualquer contexto onde a diferença tenha um custo social.
Centrar a camuflagem apenas no feminino criaria, por isso, um risco inverso: depois de décadas a não reconhecer muitas meninas, poderíamos passar a não reconhecer homens cujas dificuldades também se encontram escondidas sob uma apresentação social aparentemente competente.
O custo que não aparece na consulta
A camuflagem tem uma função adaptativa, mas adaptação não significa ausência de custo.
Muitas vezes, esse custo revela-se apenas quando a interação termina: no esgotamento depois de um dia de contacto social, na necessidade de isolamento para recuperar, na ansiedade antecipatória, na vigilância permanente sobre o próprio comportamento ou na sensação de estar sempre a representar uma versão aceitável de si.
Os estudos qualitativos descrevem de forma repetida experiências de exaustão, perda de espontaneidade, isolamento, confusão identitária, expectativas externas irrealistas e atraso no diagnóstico. Revisões sistemáticas e meta-etnográficas também encontram associações entre camuflagem, menor bem-estar e dificuldades de saúde mental, embora a relação seja complexa e influenciada pelo estigma, pela rejeição, pelo contexto e pela intensidade do esforço de automonitorização (Hull et al., 2017; Tubío-Fungueiriño et al., 2023; Cook et al., 2024).
A prudência científica é importante: a maioria dos estudos nesta área é transversal ou qualitativa e, por isso, não permite concluir que a camuflagem, por si só, cause ansiedade ou depressão. Um estudo longitudinal recente não encontrou uma sequência causal simples entre maior camuflagem inicial e agravamento posterior da saúde mental (Van der Putten et al., 2025). O dado mais rigoroso, neste momento, é que a camuflagem e o sofrimento psicológico surgem frequentemente associados e podem reforçar-se mutuamente dentro de contextos sociais pouco tolerantes à diferença.
Esta nuance não diminui a relevância clínica do fenómeno. Pelo contrário. Obriga-nos a deixar de procurar uma explicação única e a perguntar: que função cumpre esta estratégia, em que contextos se tornou necessária e qual é o preço que a pessoa paga para a manter?
A discrepância também é um dado clínico
Existem situações em que, a escola descreve uma criança educada, aplicada, discreta e aparentemente bem adaptada. Em casa, os pais relatam uma realidade diferente: exaustão, colapsos emocionais, rigidez perante pequenas alterações, necessidade extrema de previsibilidade ou um esforço crescente para conseguir regressar no dia seguinte ao mesmo contexto onde parece funcionar sem dificuldade.
Estas descrições não se anulam. Pelo contrário, a discrepância entre ambas constitui, ela própria, um dado clínico.
O facto de conseguir manter uma apresentação organizada em situações estruturadas não significa que esse desempenho ocorra de forma espontânea ou sem um custo significativo. Pode apresentar contacto ocular, responder às perguntas e participar numa conversa, mas fazê-lo através de estratégias aprendidas, com escassa espontaneidade e elevada carga cognitiva. Pode conhecer as regras sociais sem as processar de forma intuitiva.
É por isso que a história desenvolvimental continua a ocupar um lugar insubstituível. A entrevista aos pais ou a outras figuras significativas não serve apenas para confirmar informação. Permite aceder à evolução da pessoa ao longo dos anos, às primeiras formas de comunicação, ao jogo, às amizades, às particularidades sensoriais, às rotinas e ao modo como aprendeu a responder às exigências sociais.
Nenhuma sessão consegue reconstruir uma infância. Nenhum instrumento, isoladamente, consegue medir o esforço que antecedeu o comportamento observado.
Diagnosticar não é premiar quem parece mais autista
Reconhecer a camuflagem não significa abandonar os critérios diagnósticos, transformar qualquer sofrimento social em autismo ou presumir que uma boa capacidade de adaptação exterior prova a existência de dificuldades escondidas.
Corrigir um erro histórico não pode significar substituir um estereótipo por outro.
A avaliação deve continuar a integrar informação desenvolvimental, observação clínica, instrumentos estandardizados, funcionamento atual, diagnóstico diferencial e impacto das características nos diferentes contextos de vida. A camuflagem é uma hipótese clínica relevante, não uma conclusão automática.
Também exige atenção à linguagem. A ausência de comportamentos muito visíveis numa avaliação estruturada não deve ser confundida com ausência de características autísticas; mas a ideia de que qualquer comportamento competente é «máscara» também não é cientificamente defensável. O raciocínio clínico começa precisamente onde termina a leitura literal do desempenho.
Os instrumentos organizam informação. Os critérios estruturam o raciocínio. Mas compreender uma pessoa exige perceber não apenas aquilo que ela faz, mas como o faz, por que razão o faz e quanto lhe custa fazê-lo.
O que muda na prática clínica
Levar a camuflagem a sério muda a forma como avaliamos. Obriga a explorar a diferença entre o comportamento público e a experiência privada; a perguntar pelo que acontece antes e depois das interações; a compreender se as competências são espontâneas ou construídas; a observar a qualidade, e não só a presença, da reciprocidade social.
Obriga também a repensar a intervenção. O objetivo não pode ser tornar a pessoa mais convincente na representação da normalidade. Ensinar estratégias sociais pode ser útil quando aumenta a autonomia e a liberdade de escolha, mas torna-se problemático quando reforça a ideia de que a aceitação depende da supressão contínua da diferença.
Uma intervenção clinicamente responsável deve ajudar a pessoa a reconhecer necessidades sensoriais e emocionais, compreender os próprios limites, escolher quando determinadas estratégias lhe são úteis e construir contextos onde não tenha de se vigiar permanentemente. Esta perspetiva encontra também eco na literatura dedicada à intervenção psicológica com adultos autistas, que sublinha a importância de uma formulação clínica centrada na compreensão do funcionamento da pessoa para além da observação do comportamento (Rodrigues, 2026). Deve ainda distinguir adaptação flexível de anulação identitária.
Isto não significa romantizar todas as características autísticas nem negar dificuldades reais. Significa evitar que o sucesso terapêutico seja medido apenas pela capacidade de parecer menos autista.
Aprender a procurar o que não se vê
Talvez o maior desafio da avaliação clínica já não seja simplesmente aprender a reconhecer o autismo nas meninas. Talvez seja reconhecer o esforço silencioso que algumas pessoas fizeram para que ninguém o reconhecesse.
Por vezes, aquilo que parece competência social representa anos de observação, ensaio, autocorreção e adaptação. Aquilo que parece ausência de dificuldade pode ser uma dificuldade bem compensada. Aquilo que parece estabilidade pode depender de um esforço que só se torna visível quando a pessoa chega a casa, se isola ou deixa de conseguir sustentar o papel.
O diagnóstico não deve ser construído a partir da suposição de que tudo está escondido. Mas também não pode depender somente daquilo que ficou à vista durante uma hora de avaliação.
É aqui que reside a verdadeira responsabilidade do clínico: manter o rigor sem perder a complexidade; reconhecer padrões sem reduzir pessoas a padrões; e procurar, para além do comportamento observado, a história, a função e o custo da adaptação.
Porque, por vezes, o autismo não desapareceu. Aprendeu apenas a esconder-se.
Referências
Cancino-Barros, I., Villacura-Herrera, C., & Castillo, R. D. (2025). A meta-analytic review of quantification methods for camouflaging behaviors in autistic and neurotypical individuals. Scientific Reports, 15, 22885. https://doi.org/10.1038/s41598-025-06137-z
Cook, J., Hull, L., Crane, L., & Mandy, W. (2024). A meta-ethnography of autistic people’s experiences of social camouflaging and its relationship with mental health. Autism, 28(6), 1328-1344. https://doi.org/10.1177/13623613231223036
Hull, L., Mandy, W., Lai, M.-C., Baron-Cohen, S., Allison, C., Smith, P., & Petrides, K. V. (2019). Development and validation of the Camouflaging Autistic Traits Questionnaire (CAT-Q). Journal of Autism and Developmental Disorders, 49(3), 819-833. https://doi.org/10.1007/s10803-018-3792-6
Hull, L., Lai, M.-C., Baron-Cohen, S., Allison, C., Smith, P., Petrides, K. V., & Mandy, W. (2020). Gender differences in self-reported camouflaging in autistic and non-autistic adults. Autism, 24(2), 352-363. https://doi.org/10.1177/1362361319864804
Hull, L., Petrides, K. V., Allison, C., Smith, P., Baron-Cohen, S., Lai, M.-C., & Mandy, W. (2017). “Putting on my best normal”: Social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 47, 2519-2534. https://doi.org/10.1007/s10803-017-3166-5
Livingston, L. A., Shah, P., & Happé, F. (2019). Compensatory strategies below the behavioural surface in autism: A qualitative study. The Lancet Psychiatry, 6(9), 766-777. https://doi.org/10.1016/S2215-0366(19)30224-X
Russell, A. S., McFayden, T. C., McAllister, M., Liles, K., Bittner, S., Strang, J. F., & Harrop, C. (2025). Who, when, where, and why: A systematic review of “late diagnosis” in autism. Autism Research, 18(1), 22-36. https://doi.org/10.1002/aur.3278
Rodrigues, P. (2026). Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas. Pactor.
Van der Putten, W. J., et al. (2025). Camouflaging in autism: A cause or a consequence of mental health difficulties? Autism. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/13623613251347104