Dores que ardem sem se ver; escolhe ser parte da solução
“Shhh! Não fales sobre isso! Assim vais colocar ideias na cabeça dele(a)…”
Grande parte das pessoas não quer morrer, mas antes fugir à dor e ao sentimento doloroso.
Temos uma forma particular de evitar tudo o que se relaciona com a morte. Assusta-nos, perturba-nos, e talvez por isso seja um tema sobre o qual ainda temos dificuldade em falar. No entanto, falar sobre a morte é também falar sobre a vida. A morte e o suicídio continuam a ser tabus na nossa sociedade, e quebrar esse silêncio é um passo fundamental para a sua prevenção. Promover a consciencialização da comunidade, incentivar o diálogo aberto e combater o estigma associado ao suicídio são essenciais para avançar na prevenção e construir uma sociedade mais informada, atenta e capaz de reconhecer e apoiar quem se encontra em sofrimento.
Esta dificuldade em falar sobre o suicídio está também associada a vários mitos. Um dos mais comuns é a ideia de que abordar diretamente o tema pode incentivar ou “colocar ideias na cabeça” de alguém. Na realidade, uma abordagem responsável e sem julgamentos pode ajudar a pessoa a expressar o seu sofrimento, sentir-se compreendida e procurar apoio. O silêncio, por outro lado, pode contribuir para o isolamento e dificultar o reconhecimento de situações de risco. Neste sentido, desconstruir as crenças associadas ao suicídio são aspetos fundamentais para uma prevenção eficaz.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano, sendo uma das principais causas de morte entre os jovens de 15 a 29 anos. Em Portugal, estima-se que se suicidem em média 3 pessoas por dia.
O suicídio ocorre quando uma pessoa toma a decisão, de forma intencional, de colocar termo à sua própria vida e acaba por morrer como resultado dessa ação, o que se distingue das tentativas de suicídio e ainda dos pensamentos ou sentimentos suicidas, as quais são fatores de risco para o suicídio efetivo. É um fenómeno complexo cuja compreensão exige considerar a diversidade e a complexidade dos fatores e das circunstâncias que podem estar na sua origem.
Entre os vários fatores de risco, encontram-se um histórico pessoal e/ou familiar de problemas de saúde psicológica e suicídio, situações de vulnerabilidade, como pobreza, desemprego, perdas financeiras, bullying, acontecimentos traumáticos recentes na vida pessoal, como um divórcio, morte de alguém, história de violência ou abuso, tentativas prévias de suicídio, diagnóstico de doença grave, incapacitante ou crónica. Os fatores de risco não causam nem permitem prever um suicídio, mas revela-se importante reconhecer e identificar estes sinais.
É de igual modo importante estar atento a alterações no comportamento ou no estado emocional, bem como, o isolamento social, mudanças bruscas no humor, sentimentos de solidão e desesperança, alterações no padrão de funcionamento da pessoa. Estes sinais devem ser lidos à luz da história e das circunstâncias individuais.
Ao mesmo tempo, vários fatores podem promover uma maior resiliência perante situações de crise ou vulnerabilidade, nomeadamente, a existência de uma rede de apoio social e conexões fortes com a família, amigos, comunidade, sentimento de pertença, o acesso a cuidados de saúde psicológica, competências de reconhecimento e regulação emocional, resolução de problemas e adoção de estratégias de coping adaptativas e, ainda, crenças religiosas ou culturais protetoras.
É importante reconhecer os sinais de alerta, mas mais do que isto, é importante a escuta, a compreensão e o não julgamento. Devemos criar espaço para que, falar sobre saúde mental, sobre fragilidade, não seja motivo de vergonha. Por vezes, quando alguém nos tenta falar sobre o seu sofrimento ou quando está assoberbada com pensamentos suicidas, tendemos ao desconforto, não estamos preparados, não paramos verdadeiramente para escutar. No entanto, uma aparente simples escuta pode transformar a vida de alguém. Grande parte das pessoas não quer morrer, mas antes fugir à dor e ao sentimento doloroso.
A prevenção do suicídio começa em cada um de nós, enquanto família, amigo(a), colega, vizinho(a), educador(a), profissional de saúde, político(a).
Chegou a altura de parar de dizer “Shhh! Não fales sobre isso!” e começar a dizer: “Fala. Estou aqui para te ouvir.” E tua Escuta salva uma vida…
Em caso de emergência, ligue 112 (INEM).
Em situação de crise, ligue 808 24 24 24 (Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24).
Linhas de Apoio que garantem o anonimato:
SOS Voz Amiga | 15h30 às 00h30 | 213 544 545 / 912 802 669 / 963 524 660
Conversa Amiga | 15h às 22h | 808 237 327 / 210 027 159
Telefone da Amizade | 16h às 23h | 228 323 535
Linha Nacional de Prevenção do Suicídio | 24h | 1411
Organização Mundial da Saúde. (2026). Suicídio. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/suicide
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2025) Vamos falar sobre suicídio? https://www.ordemdospsicologos.pt/
Ana Rita Silva, Psicóloga Clínica