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Comunicação Aumentativa e Alternativa

Artigo publicado em 24 de Março de 2026.

COMUNICAR É MUITO MAIS DO QUE FALAR: TUDO O QUE PRECISA DE SABER SOBRE COMUNICAÇÃO AUMENTATIVA E/OU ALTERNATIVA

 

Quantas vezes comunicou hoje sem usar palavras?

A comunicação é uma das bases da interação humana. Permite expressar necessidades, emoções e opiniões, assim como estabelecer relações com os outros. A capacidade de comunicar permite controlar o meio envolvente e cria oportunidades de interação (Nunes, 2001). Como grande parte do que aprendemos depende dessas interações, a comunicação torna-se uma peça-chave fundamental para a aprendizagem (Downing, 2005).

Embora a fala seja o meio mais comum de comunicação, está longe de ser o único. É neste contexto que surge a Comunicação Aumentativa e/ou Alternativa (CAA), que engloba diferentes formas de comunicar — como gestos, expressões faciais, signos manuais, símbolos, imagens ou dispositivos com saída de voz — utilizadas de acordo com o contexto e as necessidades de cada pessoa.

É importante perceber os conceitos da CAA. A comunicação aumentativa ajuda a pessoa a comunicar melhor, sem substituir as formas que já usa. Já a comunicação alternativa utiliza formas diferentes da fala, quando falar não é suficiente para comunicar (Tetzchner & Martinsen, 2000). Deste modo, a CAA tem um duplo objetivo: por um lado, apoiar e promover o desenvolvimento da linguagem oral; por outro, garantir uma forma eficaz de comunicação quando a fala não é o meio privilegiado.

Curiosamente, todos nós utilizamos formas de CAA no dia a dia, muitas vezes sem nos apercebermos. Sinais de trânsito, sinalética em espaços públicos, ícones nos telemóveis ou até gestos simples, como acenar, são exemplos claros de diferentes formas de comunicação — mostrando que comunicar vai muito além das palavras.

 

O que falta saber sobre a CAA?

Apesar dos seus benefícios, ainda existem algumas ideias erradas sobre a CAA. Estes são três dos mitos mais frequentes:

1. A CAA é o “último recurso” na intervenção

Durante muito tempo, a CAA foi vista como uma estratégia a utilizar apenas quando a fala não se desenvolvia e outras opções já estavam esgotadas. Atualmente, sabe-se que deve ser introduzida precocemente, antes que surjam experiências repetidas de insucesso comunicativo.

2. A CAA dificulta ou impede o desenvolvimento da fala

É comum pensar que o uso de imagens ou símbolos pode atrasar a fala. No entanto, a evidência científica mostra o contrário: a CAA apoia o desenvolvimento da linguagem, aumentando as oportunidades de comunicação e ajudando a criança a expressar-se. Ao utilizar a CAA, a criança continua exposta à fala — por exemplo, através de modelos verbais — o que pode até favorecer o seu desenvolvimento. Assim, a CAA não substitui a fala; cria condições para que a comunicação aconteça de forma mais eficaz.

3. Existe uma idade mínima para utilizar a CAA

Não existe uma idade mínima para iniciar a CAA. Pelo contrário, pode ser introduzida desde os primeiros sinais de dificuldade na comunicação. A evidência mostra que a intervenção precoce favorece o desenvolvimento da linguagem e permite que a criança comunique de forma mais eficaz desde cedo. Por isso, a CAA não deve ser adiada - quanto mais cedo for introduzida, maiores são as oportunidades de desenvolvimento. A CAA pode também ser utilizada em qualquer fase da vida, incluindo na vida adulta, por exemplo após um AVC ou em situações de demência, sempre que a comunicação esteja comprometida.

Para muitas pessoas, a fala não é o meio mais eficaz — ou possível — de comunicar. Isso não significa que não tenham intenções, ideias ou emoções. Significa apenas que necessitam de outros meios para se expressar.

Facilitar a comunicação é, por isso, uma responsabilidade partilhada. Implica estarmos atentos, dar tempo, valorizar todas as tentativas de comunicação e, sempre que necessário, adaptar a forma como comunicamos.

Promover a comunicação, em todas as suas formas, é promover participação, autonomia e qualidade de vida.

 

Terapeuta da Fala

Marta Oliveira

 

Bibliografia

Nunes, C. (2001). Aprendizagem activa na criança multideficiente: guia para educadores. Lisboa: Ministério da Educação, Departamento de Educação Básica.

Downing, J. D. (2005). Teaching communication skills to students with severe disabilities (2nd ed.). London: Paul Brookes Publishing Co.

von Tetzchner, S., & Martinsen, H. (2000). Introdução à comunicação aumentativa e alternativa. Porto: Porto Editora.

Sapage, S. P., Cruz-Santos, A., & Fernandes, H. A. S. M. (2018). A comunicação aumentativa e alternativa em crianças com perturbações graves da comunicação: cinco mitos. Revista Diálogos e Perspectivas em Educação Especial. Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC/UNESP).