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A Comunicação na Perturbação do Espetro do Autismo

Compreender a intenção para promover a interação

 

Cada criança é única, com o seu próprio percurso de desenvolvimento.  Acompanhar o crescimento infantil é descobrir o mundo através do olhar da criança e reconhecer o valor de cada pequena conquista.

Desde os primeiros dias de vida, a criança aprende e desenvolve-se através das interações com os seus cuidadores, que são os seus principais modelos de comunicação.

Nos primeiros anos de vida, estas interações têm um papel essencial no desenvolvimento da comunicação e da linguagem. É através do olhar, dos gestos, dos sons e das expressões que a criança começa a comunicar as suas necessidades, emoções e interesses.

A intencionalidade comunicativa refere-se precisamente à capacidade de a criança utilizar comportamentos com o objetivo de comunicar com o outro.

Antes mesmo das palavras, a criança pode demonstrar essa intenção através do olhar, do apontar, de vocalizações, de expressões faciais ou ao conduzir o adulto até ao que deseja.

Estas competências emergem nas interações do dia a dia e começam a desenvolver-se desde o primeiro ano de vida, quando a criança percebe que os seus comportamentos têm impacto no outro.

 

Comunicar vai muito além das palavras

Muitas crianças com Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) querem comunicar. Querem partilhar o que sentem, o que precisam e o que gostam. Querem brincar, pedir ajuda, mostrar algo importante e estar ligadas aos outros.

 No entanto, nem sempre conseguem fazê-lo através da fala ou das formas de comunicação mais convencionais.

Nestes casos, a comunicação pode surgir de outras formas, através do olhar, de um gesto, de um som, de uma repetição, de um abraço ou até através de um choro ou de uma birra. E tudo isto também é comunicação.

Por detrás de muitos comportamentos existe uma intenção comunicativa um desejo de obter algo, de chamar a atenção, de expressar uma necessidade ou de estabelecer ligação com o outro. Quando não conseguimos compreender o que a criança está a tentar comunicar, ela pode sentir frustração, e as famílias também.

 

A comunicação na Perturbação do Espetro do Autismo

Nas crianças com Perturbação do Espetro do Autismo, a intencionalidade comunicativa pode desenvolver-se de forma diferente. Pode existir vontade de comunicar, mas dificuldade em compreender como utilizar a comunicação para expressar desejos, emoções ou interesses. Algumas crianças podem apresentar menor iniciativa comunicativa, dificuldades em manter a interação ou formas de comunicação menos convencionais. Ainda assim, é fundamental reforçar que isto não significa ausência de intenção comunicativa. Muitas vezes, estas crianças precisam apenas de mais tempo, mais oportunidades e mais apoio para desenvolverem essas competências.

O papel da intervenção e da família

A intervenção precoce é essencial para estimular a comunicação, a interação social e a autonomia da criança. O terapeuta da fala tem um papel importante na avaliação e na orientação das famílias, promovendo estratégias que facilitem a comunicação no contexto natural da criança. Os pais, cuidadores e professores têm também um papel central neste processo. São eles que, no dia a dia, criam as oportunidades mais significativas de comunicação.

Algumas estratégias simples podem fazer uma grande diferença:

· utilizar gestos sociais e cumprimentos de forma consistente;

· promover brincadeiras de troca de turnos;

· incentivar o contacto ocular nas interações, sem o forçar;

· oferecer escolhas entre dois objetos ou atividades;

· dar tempo à criança para responder;

· valorizar todas as tentativas de comunicação.

O mais importante é ajudar a criança a perceber que comunicar é algo positivo, funcional e prazeroso. Cada interação representa uma oportunidade de aprendizagem, ligação e desenvolvimento.

A criança com Perturbação do Espetro do Autismo comunica mesmo que de forma diferente. Quando encontra adultos atentos, disponíveis e sensíveis às suas formas de comunicação, pode desenvolver competências comunicativas significativas e estabelecer relações mais ricas com o mundo à sua volta.

 

Cada criança comunica à sua maneira.
E cada tentativa de comunicação tem valor.

 

 

Clara Silva, Terapeuta da Fala

Pós-graduação em Motricidade oro facial;

Pós-graduação em comunicação aumentativa e alternativa da infância ao adulto;

Curso de formação em processamento auditivo central.